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OPINIÃO: Robinho no Galo tem lógica que transcende experiência com R10


Atlético contrata o jogador pensando no sucesso que teve com Ronaldinho em um passado recente, mas a chegada de Robinho não é só isso: ela faz sentido


Talvez “Annie Hall”, que por aqui recebeu o duvidoso título de “Noivo neurótico, noiva nervosa”, seja a obra mais representativa de Woody Allen, tanto que levou o Oscar de filme, diretor e roteiro original em 1978. Há uma cena particularmente emblemática: quando o casal de protagonistas decide cozinhar lagostas e acaba lidando com a fuga delas pela cozinha. É o momento de maior intimidade entre eles: divertem-se, brincam, riem um do outro, em uma atmosfera que transmite muito carinho, muito amor. Mas (aí vai um pequeno spoiler) a relação termina, e o homem, mais adiante no filme, tenta repetir aquele momento com outra mulher. Espalha lagostas pela cozinha, desesperado por recuperar o instante de felicidade perdido no passado. E fracassa: sua nova companheira, indiferente, fuma entediada enquanto ele lida com os crustáceos. A cena, tão triste, nos lembra que não é simples repetir um momento com personagens diferentes. Mas tentamos, sempre tentamos: assim como Atlético-MG e Robinho tentam agora.
O que o Galo busca é ser feliz com Robinho como foi com Ronaldinho Gaúcho. E o que Robinho tenta é alcançar no Galo a alegria que teve no Santos. Mas, ao contrário do que aconteceu no filme, esta nova união tem elementos que sugerem otimismo: pode dar bastante certo.
O Atlético contratar Robinho tem uma lógica que transcende a experiência com Ronaldinho - a contratação seria justificável mesmo se R10 jamais tivesse existido. É um jogador experiente, vitorioso e que pode fazer uma função essencial ao time, provavelmente deslocado para a esquerda de ataque, com Luan pela direita, Dátolo centralizado e Lucas Pratto à frente deles. Robinho pode não ser apenas um medalhão: pode ser uma peça racional de encaixe na engrenagem de Diego Aguirre, que gosta de times que tenham opções de velocidade pelos lados (Martinuccio no Peñarol; Valdívia no Inter). E o reforço atleticano, mesmo que não tenha a explosão do passado, é jogador de raciocínio rápido, de ações automatizadas, do tipo que otimiza jogadas. Faz, sim, sentido o Galo contratá-lo.
Mas há poréns, e certamente foi ao pensar neles que o Atlético lembrou do passado de felicidade com Ronaldinho. Em 2012, quando o craque deixou o Flamengo pela porta dos fundos, como já fizera com o Grêmio, a pergunta era se algum clube brasileiro seria doido de investir nele. O Atlético foi, e a loucura resultou no título da Libertadores do ano seguinte, com Ronaldinho se tornando um dos maiores ídolos da história atleticana.
Robinho não é Ronaldinho. Não alcançou o mesmo patamar mundial. Mas a situação tem semelhanças. O desempenho recente do atacante depõe contra ele, como acontecia com seu antecessor. Robinho, mais do que se submeter a jogar na China por dinheiro, conseguiu a façanha de fracassar lá. Virou reserva no Guangzhou Evergrande e, quando titular, foi substituído repetidas vezes – mesmo treinado por Felipão. Fez apenas três gols.
Ou seja, o Atlético confia que pode recuperar Robinho. E confia, sobretudo, porque deu certo com Ronaldinho.
E há o outro lado da moeda. Sempre que jogou no Brasil, em três diferentes passagens pelo Santos, Robinho foi bem. Muito bem. No pior momento da carreira, ele volta a um porto seguro. Volta à terra onde foi feliz.
Pois aí o torcedor do Santos vai perguntar: se é assim, por que não retornar à Vila Belmiro? É preciso que o próprio Robinho responda. A torcida santista, revoltada, entende que é por dinheiro. Mas se quisermos advogar a favor do atleta, é possível encontrar argumentos que sustentam a decisão – partindo do pressuposto de que ele ainda seja um sujeito com ambições na carreira. No Santos, Robinho poderia aumentar uma idolatria que já tem; no Atlético, pode construir uma idolatria nova. No Santos, Robinho poderia (ao menos neste primeiro ano) repetir títulos que já tem; no Atlético, pode buscar uma conquista inédita, a Libertadores. Mas repitamos: esse raciocínio depende do pressuposto de que ele ainda tenha ambições, uma impressão contrária àquela deixada por ele em sua passagem pela China.
Robinho talvez tenha mais talento do que conseguiu mostrar em sua carreira, e isso é consequência de escolhas erradas. Cada retorno ao Santos parecia o começo da próxima saída, e cada saída parecia o começo do próximo retorno. Havia fragilidade na relação. E a ruptura acabou sendo traumática: torcedores sujando a imagem dele em um muro do CT, e sua presença na página de ídolos do site oficial do clube misteriosamente desaparecendo.
É uma pena ver uma história tão bonita terminar assim. Mas raiva é sentimento, é consequência da paixão, e querer ponderar sobre ele, querer criticá-lo, é muito fácil. O torcedor do Santos tem o direito de se sentir ferido. Assim como Robinho tem todo o direito de preferir o Atlético, inclusive se tiver tomado a decisão por dinheiro. Não há crime algum nisso. Há consequências, e elas dependem de erros e acertos vindouros, mas não há crime.fonte Ge

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