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O ex-presidente Lula prestou depoimento em Curitiba nesta quarta-feira (10/5) e se defendeu das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro

Foto:Alex Silva

A 13ª Vara Federal de Curitiba liberou, na noite desta quarta-feira (10/5), os vídeos com o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestado ao juiz Sérgio Moro no âmbito da Operação Lava Jato.

Na oitiva, Sérgio Moro fez questionamentos sobre a ampliação, a reforma e a decoração de um tríplex no Guarujá (SP), além do custeio do armazenamento de bens entre 2011 e 2016. Esses fatos seriam “benesses” dadas ao petista pela empreiteira em troca de negócios na Petrobras.

O juiz Sérgio Moro iniciou o interrogatório afirmando que não tem nenhuma desavença com o ex-presidente. “O que vai determinar o final são as provas e a lei. Eu sou o juiz. Estou aqui para ouvi-lo e proferir julgamento ao final do processo”, disse.
Moro avisou a Lula que não haveria nenhuma possibilidade de o ex-presidente ser preso durante o depoimento e que haveria perguntas difíceis, o que é “natural do ato judicial”. “O objetivo é esclarecer a verdade e ‘oportunizar’ que o senhor tenha uma resposta para cada pergunta”. “Para quem quer falar a verdade, não tem pergunta difícil”, respondeu Lula.
“A verdade é o seguinte: não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum triplex”. Afirmou Lula, em seu primeiro momento frente a frente com o juiz da Lava Jato, em Curitiba.
Moro perguntou se Lula tinha desistido do tríplex depois que ele visitou o imóvel. “O senhor decidiu que não ia ficar com esse primeiro triplex já na primeira visita, em fevereiro de 2014?” O ex-presidente respondeu: “Foi isso. Nunca solicitei e nunca recebi apartamento. Imagino que o Ministério Público vai na hora que for apresentar as provas. Eles devem ter pelo menos algum documento que prove o direito jurídico de propriedade para dizer que é meu o apartamento”.
Na segunda parte de seu depoimento, Lula voltou a negar que teve conhecimento das reformas realizadas no triplex do Guarujá, atribuído a ele pela acusação. De acordo com a promotoria, a construtora OAS teria feito reformas ao custo de R$ 1,277 milhão a pedido da família do ex-presidente. As benfeitorias consistiriam em instalação de cozinha e elevador privativo, além da adequação de quartos.
Lula afirmou que já havia decidido não ficar com o apartamento em 2013 e que, após uma segunda visita da ex-primeira-dama Marisa Letícia, ambos decidiram não prosseguir com a aquisição do imóvel. “Eu não ia ficar porque não tinha como ficar”, disse ao juiz Sérgio Moro. Ainda de acordo com o ex-presidente, Marisa não o informou sobre a realização de reformas. “Lamentavelmente, ela não está viva para perguntar [a ela]”, disse.
Nessa etapa, o petista aproveitou para fazer críticas ao Ministério Público:
“Como eu considero esse processo ilegítimo e a denúncia uma farsa, estou aqui em respeito à lei, em respeito à nossa Constituição. Mas com muitas ressalvas ao comportamento dos procuradores da Lava Jato.”"
Sérgio Moro questiona o ex-presidente sobre reuniões feitas com o presidente da OAS, Léo Pinheiro, e o ex-diretor da empresa Paulo Gordilho. Lula negou que, durante os encontros, tenha tratado sobre o triplex do Guarujá.
Questionado sobre as delações premiadas feitas por ex-executivos, o ex-presidente afirmou: “Delatar virou o alvará de soltura dessa gente”.
Lula também afirmou não ter acompanhado o andamento da construção do imóvel entre 2005, quando a cota de consórcio foi comprada, e 2013, quando a família teria desistido da aquisição do apartamento. No fim do trecho, Lula volta a afirmar: “A verdade é o seguinte, doutor Moro, e vou repetir: não solicitei, não recebi e não paguei por nenhum triplex”.
A quarta parte do depoimento de Lula tem foco no esquema de corrupção em contratos da Petrobras, desbaratado pela Operação Lava Jato. A questão levantada pelo juiz Sérgio Moro é porque o triplex atribuído a Lula no Guarujá seria parte do pagamento de propina no esquema.
Questionado pelo juiz sobre as nomeações de diretores da empresa feitas por Lula, o ex-presidente atribuiu os atos a indicações políticas da base de governo à época. “Sem aliança política você não governa este país nem ganha eleição”, disse.
Também indagado sobre os crimes cometidos pelos ex-dirigentes da Petrobras Nestor Cerveró, Renato Duque, Paulo Roberto Costa e Jorge Zelada, Lula afirmou que não tinha conhecimento dos delitos.
“Eu não sabia, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só ficamos sabendo quando grampearam a conversa do [doleiro Alberto] Youssef com o Paulo Roberto [Costa]. (…) Se eu tivesse conhecimento, nenhuma empresa dessas prestava serviços para a Petrobras”. Afirmou o ex-presidente.
Lula também negou ter conhecimento das supostas ações de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT acusado de cobrar propina de empreiteiras.
Ainda no tópico da Petrobras, Moro perguntou se Lula sabia do suposto esquema de propina instalado nas obras da Refinaria Abreu e Lima, no Nordeste. De acordo com o magistrado, ao fim da gestão do petista, os custos do empreendimento já haviam aumentado em nove vezes, de R$ 2 bilhões para R$ 18 bilhões.
Moro também perguntou se o ex-presidente tinha conhecimento dos R$ 6,194 bilhões desviados da Petrobras em esquemas de propina, já reconhecidos pela estatal.
Lula negou saber de qualquer um desses esquemas. “Se a Petrobras soubesse da propina, ela poderia ter evitado. (…) O senhor acha que as pessoas iam falar de propina? O senhor acha que o seu filho, quando tira nota baixa na escola, chega em casa pulando de alegria para contar?”, ironizou o ex-presidente.
Ao fim do trecho, o clima entre Lula e Sérgio Moro ficou mais acirrado. O presidente criticou a utilização de matérias jornalísticas na elaboração de denúncias, ao que o magistrado respondeu que era o ex-presidente que utilizava informações da imprensa.
A parte terminou em bate-boca entre procuradores e defensores de Lula depois que Moro pediu que o ex-presidente comentasse o esquema do mensalão.
Por orientação da defesa, Lula não respondeu a quase nenhuma das questões levantadas por Moro. A maioria das perguntas do magistrado dizia respeito a declarações feitas pelo ex-presidente à imprensa e da relação dele com ex-aliados. De acordo com os advogados, os fatos não dizem respeito à denúncia do processo em questão.
Lula confirmou, no entanto, que se encontrou com o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro em 2014. Em delação, o empresário afirmou que Lula havia pedido a destruição de possíveis documentos que comprovassem o pagamento de propina por parte da empresa. O petista negou as acusações.
Em parte do testemunho, Lula também reafirmou o desejo de se candidatar novamente à Presidência: “Eu estava encerrando minha carreira política. […] Mas agora, depois de tudo o que está acontecendo, estou dizendo em alto e bom som que quero ser candidato à Presidência da República de novo”.
O Ministério Público Federal apresentou questões ao ex-presidente relacionadas ao triplex do Guarujá e à relação do petista com outros denunciados na Operação Lava Jato. O presidente volta a negar todas as acusações.
Questionado sobre a instalação de um elevador ao custo de R$ 700 mil no apartamento, Lula afirma: “Se eu tivesse pedido um elevador, você poderia me levar para uma clínica por questão de insanidade mental”, disse, ao mostrar uma foto do apartamento onde mora, em São Bernardo do Campo (SP), que possui uma grande escada em espiral.
O presidente também alega não ter conhecimento de repasses de propinas ao PT por empreiteiras envolvidas na Lava Jato: “Se, em algum momento, um dos 204 milhões de brasileiros chegasse para o presidente da República e dissesse que tem um esquema de propina na Petrobras, seria mandada embora a diretoria inteira”.
Os procuradores também voltaram a fazer perguntas sobre encontros de Lula com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e com o ex-presidente da empreiteira OAS Léo Pinheiro.
Sobre o primeiro, o ex-presidente afirmou que não tinha relação próxima. Já quanto a Pinheiro, Lula confirmou diversos encontros, mas negou que tenha tratado do apartamento no Guarujá durante as reuniões realizadas após fevereiro de 2014.
“Eu conversei do triplex com o Léo… Me parece que em outubro de 2013, quando ele foi ao Instituto [Lula]. Eu não tenho a data precisa, tá? E só fui visitar o prédio em fevereiro de 2014. Nunca mais se conversou sobre o triplex”, assegurou.
No último vídeo do depoimento, Lula diz que está sendo vítima da maior “caçada jurídica que algum presidente da República já teve”. Na sequência, fez elogios à própria trajetória e ao tempo em que chefiou o governo. Mas foi alertado por Moro que as declarações finais não podiam ter cunho político.
Lula pediu paciência ao juiz: “Estou sendo julgado pela construção de um powerpoint mentiroso”.
O petista disse que os netos têm sofrido bullying na escola e afirmou que a mídia o criminaliza. Moro lembrou que as acusações são feitas pela Justiça, não pela imprensa.
Lula, então, desafiou a Justiça a apresentar provas contundentes. “Digam-me qual crime eu cometi. Se eu cometi, tem documento? Tem escritura pública que comprove? Não basta levantar a tese”.
O petista ainda reforçou sua colaboração com as investigações. “Sempre respeitei as leis, fiz mais leis, batalhei para acabar com a corrupção. Participarei de todas as audiências. Se tem um brasileiro que deseja a verdade, sou eu.”
No final, o ex-presidente deu uma alfinetada em Moro ao criticar, mais uma vez, a imprensa. “Se houver sinais de que serei inocentado, o senhor será atacado pelos mesmos que me atacam hoje. Prepare-se.”
Moro retrucou e disse que já é alvejado por blogs que apoiam o ex-presidente Lula. “Padecemos dos mesmos males”, finaliza.
(Pedro Alves)



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