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Curso de Verão da Escola de Música de Brasília tem edição mais enxuta

O evento passou a ser realizado durante a semana pedagógica da instituição


O 39º Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília (Civebra-EMB) teve início esta semana em uma versão mais enxuta em relação a edições anteriores e menos convidados internacionais. Desde o ano passado, a direção da escola decidiu incluir o curso como parte da programação da semana pedagógica, ao contrário do que acontecia antes de 2016, quando o evento era realizado em janeiro e reunia dezenas de professores de todo o Brasil e do exterior, e centenas de alunos de outros estados.

A decisão foi tomada depois da crise que envolveu mudança na direção da escola e da decisão de investir recursos em reformas necessárias à escola. “O sonho é que o curso volte para janeiro”, explica Edilene Maria Muniz de Abreu, que assumiu a direção da EMB em abril de 2016, após o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) apontar indícios de má gestão durante a administração do então diretor, Ayrton Pisco.

Quando realizado em janeiro, durante as férias, o Civebra permite que alunos do Brasil inteiro se inscrevam e se desloquem para participar do evento, assim como pode contar com agenda disponível de professores de fora, que são pagos com cachês. Nesse caso, os professores da escola, que integram boa parte do corpo docente do curso, recebem hora extra. Em 2005, houve 700 inscritos, muitos vindos de fora para receber aulas com 66 professores. Em 2013, quando o investimento no curso ultrapassou a marca de R$ 16 milhões, o número de inscritos chegou a 1.100 e o de professores, a 86.

Os montantes eram altos e acabavam destinados, em boa parte, ao aluguel de equipamentos e instrumentos destinados à realização do evento. Muitos professores e alunos, na época, reclamavam que os investimentos não eram destinados a melhorias na estrutura da escola. “Fazíamos um curso de primeiro mundo, mas, depois, a escola ficava sem nada”, diz o flautista Davson de Souza, vice-diretor da EMB.

Este ano, o montante disponibilizado pela secretaria de educação por meio do Plano de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF) foi de R$ 1,5 milhão, quase R$ 200 mil a menos que em 2017. “Mas eu não queria deixar de fazer o curso por causa de R$ 100 mil”, explica Edilene.

Prioridades

A lista de convidados inclui 10 professores, sendo apenas um estrangeiro, além do corpo docente regular da escola. No total, são 3.280 inscritos, sendo que boa parte é de alunos regulares da própria EMB, e não de fora. O secretário de Educação, Júlio Gregório, admite que o curso ficou muito mais simples, mas aponta que hoje é impossível destinar valores como R$ 15 milhões a esse tipo de evento. “Com isso construímos cinco creches”, assegura. “Nada impede que se faça uma avaliação, mas uma coisa é clara, não se trata de um festival de música e sim de um curso de verão de uma escola que, se feito em janeiro, tem que pagar hora extra para os professores.”

A mudança do período em que o Civebra é realizado e a drástica redução no orçamento foram uma imposição da secretaria de Educação, que assumiu a realização do evento em 2011, durante a gestão do então governador Agnelo Queiroz (PT-DF). Foi uma época em que muito dinheiro era revertido para o curso, mas praticamente nada ficava para a escola.

Durante as mais de duas semanas de aulas, em janeiro, alugava-se os melhores equipamentos e instrumentos. Grandes nomes da música nacional e internacional integravam a lista de professores convidados e os alunos que vinham de fora contavam com hospedagem e alimentação gratuitas. Gente como o guitarrista Toninho Horta, os bateristas Carlos Bala e Paulo Braga, os saxofonistas Leo Gandelman e Carlos Malta e o violonista Guinga, além dos pianistas André Mehmari e Maria Thereza Madeira, passaram pela EMB para dar aulas durante o curso.

Desvantagens

Para os professores, há pontos fortes e fracos na mudança do Civebra nos dois últimos anos. “A gente não optou por esse modelo, isso foi imposto. Estamos tentando fazer o melhor para deixar um legado para a escola”, diz o contrabaixista Oswaldo Amorim. “O curso chegou a montantes altíssimos, mas nada ficava para a escola. Se a gente vê a escola hoje e o que era há um ano, melhorou demais, a gente investiu em infra. Mas é isso que a gente quer para o curso? Não. Mas é uma situação emergencial.”
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Segundo Amorim, além da recuperação dos dois teatros da escola, que foram reformados, houve investimento na manutenção de instrumentos como compra de cordas e afinação. Para ele, no entanto, é preciso voltar ao modelo antigo, quando o curso era realizado durante o mês de janeiro e administrado pela própria escola, como nos anos 1990. “Na época que era feito pela escola, funcionava muito bem. Quando foi para a secretaria de Educação, começou a descaracterizar”, lamenta.

O violinista Rochael Alcântara, professor da EMB há 21 anos, acredita que o novo modelo do Civebra, realizado durante as aulas regulares da instituição, traz mais problemas do que benefícios. “Não se pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Os dois ficam prejudicados, tanto as aulas quanto o curso. Fica uma confusão, acho que é uma trapalhada. Isso não é curso de verão, fica atropelando o curso regular”, diz. Em relação às melhorias de infraestrutura, ele reclama que a comunidade docente não é consultada e que não há compra de novos instrumentos.

Maestro se sentiu desrespeitado

O 39º Civebra teve início com uma polêmica. Na sexta-feira, o maestro paulistano Roberto Tibiriçá, um dos 10 professores convidados para o curso, voltou para São Paulo depois de se sentir desrespeitado pela direção da EMB. Acostumado a reger as maiores orquestras do país, como a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), e ocupante de uma cadeira na Academia Brasileira de Música, Tibiriçá está no rol dos maestros mais importantes do país.

Ao chegar a Brasília, na última sexta, ele foi levado ao hotel vencedor da licitação do Civebra para a hospedagem dos convidados. Segundo o maestro, não havia condições de permanecer no local por causa da higiene deficiente das instalações. Como não recebeu atenção da direção da EMB ao reclamar sobre as condições do hotel e depois de ganhar um upgrade para um quarto que, segundo ele, também estava em condições ruins, o maestro se sentiu humilhado e decidiu voltar para São Paulo.

Tibiriçá receberia um cachê de R$ 15 mil para 20 dias de aulas, mesmo valor destinado a todos os convidados. “Aceitei condições extremamente abaixo do que costumo receber, o que me ofereceram é o que ganho para fazer uma apresentação. Cancelei compromissos em São Paulo para poder atender a esse clamor”, diz o maestro, que reclama ter recebido apenas uma carta-convite da direção da escola e nenhum outro tipo de comunicação. “Se você convidar um reitor de Harvard, não vai colocar em um hotel como esse. Por que nós, músicos, somos jogados em hotéis assim?”.

A diretora da EMB explica que as condições de hospedagem foram as mesmas para todos os convidados. “Não podemos esquecer que vivemos um momento de crise, que tivemos uma verba pequena e que não poderia ser direcionada apenas para hospedagem”, explica Edilene. “A gente lamenta o mal-entendido”. Tibiriçá publicou um texto sobre o ocorrido em sua página no Facebook, o que gerou alguma repercussão e um telefonema do secretário de Educação, Júlio Gregório, com um pedido de desculpas. “Ele entendeu os limites que uma licitação impõe”, garante Gregório.

Análise da notícia
Patrimônio lapidado

Brasília sempre foi conhecida como celeiro de músicos. Primeiro do rock, depois de instrumentistas tão gabaritados que acabavam nos palcos de Maria Bethânia e Gal Costa, e, em seguida, do choro, do canto, da música erudita. Um patrimônio como esse se constrói ao longo de anos de esforço e competência pedagógica, dedicação e política pública, mas sua continuidade pode ser destruída em questão de semanas. A Escola de Música de Brasília (EMB) leva boa parte dos louros por tornar a cidade uma referência e é claro que a excelência pedagógica da instituição faz diferença. O Curso Internacional de Verão da Escola de Música (Civebra), cuja credibilidade possibilitava a vinda de grandes nomes da música, sempre foi um braço dessa estratégia pedagógica idealizada pelo maestro Levino de Alcântara, criador da escola. A lista do curso, nos últimos 40 anos, colocou à disposição dos alunos nomes da música com os quais raramente eles poderiam ter aulas. E 30 minutos de uma master-class com um pianista russo de um conservatório pelo qual passou Tchaikovsky ou com um guitarrista que toca com Caetano Veloso pode equivaler a anos de aprendizado e conhecimento. 

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