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A pólio volta a assombrar. Saiba mais sobre a vacina e seus riscos


Medicamento oral usado até 2016 causou pequenos surtos de paralisia em alguns países. Baixa cobertura no Brasil alertou as autoridades


epois do fantasma do sarampo voltar a assombrar os brasileiros com seus mais de 400 casos confirmados, agora é a vez de a paralisia infantil ameaçar, 28 anos depois do último caso da doença registrado no país. Na última semana, espalharam-se por jornais do país notícias sobre os 312 municípios com cobertura vacinal abaixo dos 50%. A constatação preocupou autoridades médicas brasileiras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza como adequado o atendimento de 95% do público.

A informação contraria a meta de erradicação total da doença no mundo, com a qual o Brasil está comprometido desde os anos 1980. No mundo, a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio calcula em 99,9% o cumprimento do objetivo – ela é endêmica hoje apenas no Afeganistão, na Nigéria e no Paquistão. No Brasil, de repente, parece começar a andar para trás.

Tanto que, logo depois da divulgação dos números, o Ministério Público Federal, através da Procuradoria Federal de Direitos do Cidadão (PFDC), oficiou as prefeituras para tomar medidas urgentes a fim melhorar as estatísticas.

Na lista de cidades em alerta, chamam a atenção duas capitais: Florianópolis, com 40,98% de cobertura, e São Paulo, com apenas 30,6%.

A pior situação é em Ribeira do Pombal, na Bahia, onde 0,5% das crianças com menos de 1 ano foram vacinadas contra a paralisia. "

No documento, do último dia 5 de julho, a procuradora Deborah Duprat lembra a obrigação dos municípios em fornecer serviços de atenção básica de saúde, como vacinação, e pede, entre outras coisas, a ampliação dos horários de funcionamento das salas de aplicação do medicamento. Orienta, ainda, as escolas a verificarem, no ato da matrícula, as carteiras de vacina das crianças. Segundo a PFDC informou ao Metrópoles, até o momento nenhum dos municípios encaminhou resposta ao ofício.

O mesmo documento encaminhado aos prefeitos, diz o órgão, será repassado às Procuradorias Regionais dos Direitos do Cidadão “para que possam abrir procedimentos administrativos voltados ao acompanhamento dos casos”.

Ainda conforme a procuradoria, caso os pedidos sejam ignorados, as medidas cabíveis dependerão de análise caso caso. Entretanto, os municípios podem ser enquadrados na Lei 7.347/85 e punidos com pena de reclusão de um a três anos, além de pagamento de multa em casos de “recusa, retardamento ou omissão de dados técnicos” quando requisitados pelo Ministério Público.

O centro da polêmica, no fim das contas, recai sobre um aparente êxodo dos pais das salas de vacinação do país. Para o pediatra Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, não é possível apontar uma única causa para as quedas nas coberturas vacinais, mas possivelmente elas passam, justamente, pelo sucesso das campanhas de vacinação contra a pólio no país. “A vacina faz com que as doenças desapareçam e as gerações seguintes acabem perdendo a percepção de risco”, diz.

Vacina está muito ligada à sensação de perigo. Vide a gripe quando você tem cepas mais fortes, vide a febre amarela e as filas que dobravam quarteirões. Ninguém viu o sarampo. Ninguém vê mais a difteria. Nem mesmo a nova geração de profissionais da saúde. Eles mesmo parecem recomendar de maneira menos enfática a imunização do que o faziam há alguns anos. Há um relaxamento natural atualmente, em decorrência da própria situação epidemiológica." Renato Kfouri, pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

A pedido, Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), respondeu seis perguntas sobre a vacinação.

Entre elas, comentou o risco de a própria vacina representar algum tipo de perigo à volta da poliomielite – desde 2016, a pedido da OMS, os medicamentos orais contra a doença, feitos com vírus vivos atenuados, não contém mais o poliovírus tipo 2 porque, até então, todos os casos de paralisia causados por essa linha do agente derivavam da tentativa de imunização.

O efeito contrário, no entanto, é considerado muito raro: a OMS estima em uma, para cada 3,6 milhões de vacinados, a chance de se desenvolver algum tipo de paralisia causada pela vacina.

Isso tem sido observado atualmente na República Democrática do Congo, por exemplo, onde casos de poliomielite derivados do medicamento oral têm sido registrados. A ideia da OMS é abolir completamente o uso da vacina oral – mesmo a usada hoje, sem o tal vírus causador dos raros efeitos adversos – até 2020.

Com a notícias da queda da vacinação no Brasil, o caso chama a atenção justamente porque o risco de casos vacinais é maior onde as coberturas são mais baixas – com o vírus em circulação, a chamada “imunização de rebanho”, quando pessoas que não tomaram a vacina acabam protegidas “por tabela”, fica comprometida. Mesmo assim, no entanto, os especialistas seguem unânimes: se a pólio está a uma casa decimal da erradicação total, é justamente por conta da vacina oral.

A estimativa da OMS é de que hoje, 16 milhões de pessoas que andam e vivem normalmente estariam paralíticas não fosse a vacina, e outras 1,5 milhão teriam morrido."

Em nota, o Ministério da Saúde informou que, seguindo determinação da OMS, desde 2012 adota o esquema misto de vacinação com doses injetáveis e orais, com substituição das duas primeiras doses com vacina oral pela inativada (injetável). A pasta informa ainda que as gotinhas dadas hoje às crianças contém dois vírus apenas, em vez de três e que isso ocorreu porque um dos vírus – justamente o tipo 2 – foi considerado erradicado do mundo.

“Vale ressaltar que essa substituição não prejudica a proteção das crianças, que já ficam protegidas com as três doses injetáveis”, diz o Ministério. Além disso, o órgão informa que tem implementado ações de vigilância para acompanhar a circulação do vírus derivado das campanhas de imunicação, através da notificação de casos de paralisia facial após a vacina e de vigilância ambiental em locais pré-definidos.

Confira o tira-dúvidas sobre a vacina, com Renato Kfouri, vice-presidente da SBIm:

Há o que explique coberturas vacinais tão baixas no Brasil?

Primeiro, é importante dizer que há uma imprecisão desses dados. O Brasil vem migrando  para um sistema informatizado de dados de vacinação nos últimos anos, e há municípios onde essa migração ocorreu de forma mais densa que outros. Não há como dizer onde há uma subnotificação de doses aplicadas, por exemplo, porque o abastecimento desse sistema não tem sido feito adequadamente. Certamente esse número não é esses 50%. No entanto, não podemos achar que não temos problemas de cobertura.

A principal hipótese é a relação com o próprio sucesso das vacinas. Isso faz com que as doenças desapareçam e gerações seguintes acabam perdendo a percepção de risco. E vacina está muito ligada com essa sensação de risco. Ninguém viu mais sarampo, não se vê mais ninguém com difteria…. Inclusive entre os profissionais de saúde. Há um relaxamento natural que a própria situação epidemiológica traz. E aí entram outros fatores que colaboram com isso também.

Faz sentido a Procuradoria exigir que os postos de saúde estendam seus horários de funcionamento?

Sim. Acesso à vacina é fundamental. A população precisa estar informada e ter possibilidade de ir até o posto. Esse acesso depende de vários fatores. A vacina tem que estar mais perto da comunidade: na igreja, na escola, no posto de saúde no fim de semana. O esquema atual de vacinação infantil exige que os pais levem o bebê a um posto quase todos os meses. Imagina poder se dar ao luxo de faltar o trabalho uma vez por mês para ir ao posto de vacinação. Pouca gente pode.

Há problema de acesso à vacina no Brasil?

Nos últimos anos faltou pouco. Sempre há algum desabastecimento temporário, aqui e ali, em função de burocracia. É quase impossível ter vacina o tempo inteiro em todas as 35 mil salas de vacinação do país. Mas, em geral, não falta.

A OMS espera eliminar a vacina oral até 2020. Há algum perigo nela?

A recomendação é não usar a vacina oral em esquema básico, nas três primeiras doses. A vacina oral é feita com vírus vivo atenuado. Em casos raríssimos, ele pode sofrer alguma alteração e causar a doença. Uma paralisia associada à vacina que é idêntica à pólio, mas causada pelo vírus vacinal. Chamamos isso de reversão da virulência.

A OMS faz uma vigilância desses casos, de paralisias no mundo. E quando foram ver, os que aconteciam eram causados pelo tipo 2 do vírus, que está erradicado do mundo na sua forma selvagem. É o primeiro vírus considerado erradicado depois da varíola. Então, se você não tem mais o vírus, porque ter uma vacina contra ele? Foi por isso que a vacina oral passou a ser bivalente, sem o poliovírus 2.

É possível chegar à meta de abandono da vacina oral, mesmo a bivalente?

Há muitos anos ela só é ofertada na rede pública. Não se comercializa mais vacina oral contra a poliomielite. Mas essa tendência é impossível de ser seguida no Brasil. Não há produção suficiente para distribuição, além de que a vacina oral é muito mais barata e tem maior alcance.

Eu acredito, de verdade, que a pólio vai acabar no mundo todo antes de eliminarmos a própria vacina oral". Renato Kfouri, vice-presidente da SBIm

Quem recebeu a vacina trivalente, com o vírus tipo 2, precisará se revacinar um dia?

Não, isso não faz sentido. Mesmo que a vacina mude, quem já recebeu vacina contra a pólio, está imunizado. O que aconteceu foi que subtraímos um pedaço da vacina antiga. Só isso.

Fonte: Metrópoles/Jornal Águas Lindas


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