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Programa mostra que fim da corrupção depende de mudança de hábito


Programa desenvolvido por alunos do CED 11 de Ceilândia mostra que, para combater mazelas como corrupção e desperdício de dinheiro público, é preciso revisar hábitos entranhados na cultura brasileira


s estudantes Milena Medeiros, Ana Beatriz Marques, Marco Antônio Araújo e a professora Luciana Brito: ensinamentos que vão além dos muros da escola

Além de desmistificar a gestão dos recursos públicos, a educação fiscal é fundamental para a revisão de práticas irregulares que estão entranhadas na cultura brasileira. O famoso “jeitinho” é posto em xeque com os ensinamentos corretos de cidadania, de acordo com especialistas. Eles afirmam que pode não ser possível eliminar a corrupção e a sonegação de impostos no país, mas a mudança de comportamento pode ser intensificada a cada geração a partir do trabalho nas escolas.

Os estudantes do Centro Educacional 14 (CED 14) de Ceilândia perceberam que, com os inúmeros escândalos de desvio de dinheiro público e a falta de ética da própria sociedade, é necessário, antes de tudo, mudar o comportamento das pessoas. Por isso, no projeto Monitorando Minha Escola, os alunos reproduziram situações do cotidiano para reprender práticas irregulares dos próprios estudantes, professores e outras pessoas que passavam pelo colégio.

Três testes foram aplicados. Em um deles, a turma recebia doces e, logo após a saída para o intervalo, era feita a contagem de quantos papéis de embalagem eram encontrados no chão ou nas mesas. Também foi feita a venda de “dindins” sem que houvesse funcionário da escola para cobrar o pagamento — os alunos teriam que depositar o dinheiro numa caixa antes de levar o produto. Em outra avaliação, notas falsas de dinheiro foram jogadas no chão para observar se os jovens as devolveriam ao proprietário.

Como era esperado, a turma não se saiu bem, a princípio. Recém-formada no ensino médio, Ana Beatriz Marques, 17 anos, uma das idealizadoras do projeto, ressalta que muitos estudantes tiveram desempenho insatisfatório nos testes e, por isso, não estavam “prontos” para reclamar de atitudes incorretas dos gestores. “Não adianta criticar os políticos e fazer a mesma coisa no dia a dia. Nós quisemos mostrar a hipocrisia de muitos alunos, que se estende ao restante da população”, diz.

No teste do dinheiro abandonado, só uma criança devolveu a nota encontrada. A professora Luciana Brito, que acompanhou o desenvolvimento do projeto, destaca que avaliações também foram feitas com adultos, e que “nenhum deles se apresentou para devolver” as cédulas.

Outro idealizador do projeto do CED 14, o estudante Marco Antônio Araújo, 17, acredita que há um deficit na educação brasileira para temas como honestidade, e que são necessárias medidas que incentivem o comportamento adequado dos alunos. A educação fiscal pode preencher essa lacuna. “Com o projeto, nós também tentamos auxiliar nessa direção e combater a corrupção diária, enraizada nas nossas vidas, escolas, comunidades e família”, explica.

O aplicativo Monitorando Minha Escola ajudou a quantificar os resultados, já que cada estudante acompanhava e compartilhava os comportamentos dos colegas e professores. “O aplicativo tem uma lista de todas as turmas do colégio, e à medida que pratica uma pequena infração, como furar fila, jogar lixo na sala, depredar o prédio, o aluno vai perdendo pontos”, explica a professora Luciana Brito, que acompanhou o desenvolvimento do projeto.

Efeito contágio 

A docente diz que, por conta dessa autorregulação, a metodologia dos alunos não foi benéfica apenas para a turma avaliada, mas também para outras pessoas que frequentavam a escola, incluindo professores. Luciana conta que os irmãos dos participantes tentaram se adaptar às condutas para se tornarem “cidadãos-modelo”. “Os pequenos foram os mais empolgados”, afirma. “Podemos ver que os alunos deixaram um legado para as próximas gerações”, acrescenta.

A aluna Milena Medeiros, 18, concorda. “Vários alunos levaram o ensinamento para a vida, agindo corretamente depois de refletirem sobre nosso projeto”, diz. O secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco, ressalta que há um legado positivo de instituições que investem na educação fiscal e na cidadania. “A população fica mais atenta, mais participativa, com muito mais vontade de acompanhar a gestão pública”, ressalta. “Isso faz com que surjam no país pessoas com capacidade de lutar por uma sociedade ética e justa. Não é só apontar o dedo e dizer que as pessoas são corruptas. É preciso algo a mais para corrigir esses desvios.”

O sucesso do projeto foi obtido mesmo com o desestímulo de alguns alunos. “As pessoas diziam que não ganharíamos nada com a iniciativa e, muitos professores, inclusive, só nos deram apoio quando a turma estava levando a coisa a sério”, ressalta Milena. A professora Luciana afirma que os incentivos à honestidade devem ser permanentes. “Toda vez que muda o ano letivo, a gente recebe uma ‘clientela’ nova. Muitos alunos de sexto ou do primeiro ano, por exemplo, estão chegando de outra escola. Então, os que já estavam aqui continuam com o mesmo comportamento, e os novos precisam passar por esse recondicionamento”, explica.

Florescimento

José Marilson Martins Dantas, professor de economia da UnB, explica que o caminho é levar às pessoas o entendimento da função social do tributo, porque só assim haverá um florescimento de pessoas mais preparadas para questionar as ações do setor público. “Esse é o grande ponto da educação fiscal, ter consciência e, ao mesmo tempo, saber que tudo é pago pela sociedade”, afirma. “Muitas pessoas não entendem como o governo é financiado e, quando ganham essa consciência, tornam-se mais cuidadosas para eleger representantes.”

Castello Branco destaca que a mudança na sociedade não virá de imediato, mas frisa que o entendimento social do que é cidadania pode melhorar as práticas no setor público. “É um processo de mudança cultural que não vai acontecer da noite para o dia. Do mais simples funcionário público ao presidente da República, todos são representantes da sociedade, estejam no Legislativo, no Executivo ou no Judiciário. Concursados, comissionados ou eleitos… No bom português, todos são empregados da sociedade”, diz.

Fonte: CB/Jornal Águas Lindas




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