PLANTÃO DE NOTÍCIAS

Esbanjando vitalidade, Gil lança disco e estreia programa no Canal Brasil

Gilberto Gil recebe o Correio Braziliense no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, para falar do álbum 'Ok ok ok' e do programa de bate-papo 'Amigos, sons e palavras'





Rio de Janeiro —  Gilberto Gil transpira vitalidade. Bebericando um gim tônica, ele recebeu o Correio Braziliense e convidados em uma charmosa galeria no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, para lançar dois trabalhos: o programa de bate-papo Amigos, sons e palavras, do Canal Brasil, e Ok ok ok, o primeiro disco de inéditas em mais de uma década. Menos de dois anos antes, Gil estava sentado no centro do palco de um teatro brasiliense, ensaiando com o violão para, no dia seguinte, fazer o show embrionário da turnê Trinca de ases, que rodou o país ao lado de Gal Costa e Nando Reis. A voz era econômica e os movimentos, frágeis. Tudo culpa das incontáveis internações para tratar a insuficiência renal que o perseguiu ao longo de 2016. Ele virou o jogo.

Essas novas obras são uma superação? Em 9 de agosto último, a pergunta fez Gil se reacomodar na cadeira. “Num certo sentido, sim. Não só o disco, mas o programa também. É uma reiteração de vitalidade minha, da capacidade de ainda fazer coisas com gosto e disposição. Passei um ano e meio, pelo menos, tendo que cuidar da saúde, com hospitalizações frequentes… É um respiro bom”, sorri satisfeito.

O que ocorreu foi exatamente isso. Após aquele show em Brasília — idealizado pelo jornalista Jorge Bastos Moreno, morto em junho do ano passado —, Gilberto Gil reiterou sua vitalidade ao revelar ao Correio que estava compondo. Viajou para Salvador com Flora Gil, companheira de todas as horas, e pôs-se a escrever. Ali, nasceu quase todo o repertório de Ok ok ok. “Meu filho, seu pai fez um monte de músicas e quer lhe mostrar. Você precisa ouvi-las”, disse Flora, em um telefonema, a Bem Gil, primogênito do casal. Aquele momento, na verdade, foi um respiro bom para toda a família.

“Sempre pensei na morte, mesmo antes desses episódios que desafiaram minha saúde e vitalidade. O músico e filósofo suíço Walter Smetak, um grande homem que migrou para o Brasil e se instalou na Bahia (os dois conviveram no período da ditadura militar), era pesquisador das religiões exotéricas, e me tornei apreciador desse modo de especular sobre a existência. Um dia, ele me disse ‘Gil, pense na morte todo dia’. Passei a pensar todo dia desde então. A morte faz parte da vida, se vale a pena viver, então morrer vale a pena. É um trecho de uma das minhas músicas (Então vale a pena, do álbum Cigarra, gravado por Simone, em 1978).”

Antes que janeiro de 2017 chegasse ao fim, Gilberto Gil tinha todas as músicas de Ok ok ok prontas. Pouco mais de três meses depois, Bem criou um ambiente confortável e familiar no estúdio. Convidou os camaradas Domenico Lancellotti (bateria), Bruno di Lullo (baixo) e ele mesmo se revezou na guitarra e no piano elétrico, a espinha dorsal da banda nas gravações. Pai e filho entraram no espaço para registrar a primeira canção: Sereno, em homenagem ao décimo neto do patriarca. A história foi lembrada pelo próprio Bem à reportagem, por telefone, na última quarta-feira, durante um dos intervalos da gravação do novo disco de Jorge Mautner, do qual faz parte.

Homenagens

Ok ok ok, muito além de ter uma produção musical primorosa, com todas as canções gravadas ao vivo, é um registro de homenagens. Um universo quase particular. No repertório, estão presentes os médicos Roberto Kalil Filho e Roberta Saretta (em Kalil e Quatro pedacinhos, respectivamente), a cantora Roberta Sá (em Afogamento, da qual Jorge Bastos Moreno é parceiro de Gil por ter adicionado a palavra “boto” à letra), o instrumentista Yamandu Costa (em Yamandu), a atriz Maria Ribeiro e a jornalista Andréia Sadi (ambas brindadas em Lia e Deia), entre outros.

A faixa título, porém, vem em tom de desabafo. Uma resposta do cantor às frequentes cobranças de posicionamentos, especialmente políticos. “Já sei que querem a minha opinião/Um papo reto sobre o que eu pensei/Como interpreto a tal, a vil situação”, dizem os primeiros versos.

Está cansado de sofrer essas exigências, Gil? “Não é nem que cansei. É que pensei, pensei, pensei. Mas as palavras dizem sim e os fatos dizem não. Os fatos são contraditórios. Os fatos recusam a ideia de que podemos agrupar o bem de um lado e o mal de outro. Não adianta ter apenas uma única opinião. Tenho dificuldade em flertar com esse antipluralismo nas ideias, esse pensamento único: no sexo, na política, no comportamento, na dimensão social.”

Em tom quase ingênuo, um dos repórteres presentes no lançamento do programa e do disco afirmou que, ao contrário de Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso sofrem constantes ataques pelos pontos de vista políticos que expõem. “Você está enganado. Sou muito amaldiçoado (risos). Quando estava hospitalizado, me mataram duas vezes. ‘Gil morreu!’; ‘Ainda bem, foi tarde’, lembrou de e-mails recebidos, enquanto, às gargalhadas, chamava as fake news de “Maldição de Zuckerberg”.

“Mas os ataques não se dão pelo fato de você ter sido ministro no governo do ex-presidente Lula?”, indagou outro profissional na pequena coletiva. Gil respirou fundo e disparou: “Não gostam de mim por diversos motivos. Talvez, a participação no ministério do Lula seja um deles. Mas também tem a ver com o fato de eu ser negro. É bom que se diga isso!”, ressaltou, no único momento em que alterou a voz na entrevista.

Conversas

Na próxima terça-feira, a partir das 21h30, Gilberto Gil inicia outra empreitada. O programa Amigos, sons e palavras vai ao ar, semanalmente, pelo Canal Brasil. A ideia da atração não é a de criar uma atmosfera de entrevista, mas de um bate-papo informal. Logo no primeiro episódio, o convidado Caetano Veloso dá esse tom naturalmente. O papo flui sobre Ok ok ok, filhos, envelhecer e morrer.

É nesse momento que surge um dos diálogos mais sensacionais do episódio. Enquanto confabulam sobre paternidade, finitude e validade das obras, Gil pergunta a Caetano sobre como tem sido o processo de envelhecimento. Após divagarem por um momento sobre essas questões, o apresentador acrescenta: “Vou usar uma das frases famosas de Canô (mãe de Caetano)”. “Qual?”, pergunta o amigo confuso. E Gil dispara, impiedoso: “Quem não morre envelhece”, gargalha Gil, enquanto recebe uma interjeição desconcertada de Caetano: “Ah!”. As risadas, dos dois e do público, são inevitáveis.

Amigos, sons e palavras tem 11 episódios, com participações de nomes como Fernanda Torres, Drauzio Varella, Alex Atala, Fernando Henrique Cardoso e Lázaro Ramos. Toda conversa começa e termina com uma música que tem relação direta com o assunto escolhido para cada convidado.

Fonte: CB / Jornal Águas Lindas





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Jornal Águas Lindas gerenciado pela agencia Marck Publicidade Copyright © 2018

Imagens de tema por Bim. Tecnologia do Blogger.
Publicado Por Jornal Águas Lindas