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Menino pode brincar com boneca? E menina com carrinho? Pais divergem sobre o assunto

Comportamento. Pais têm levantado discussão sobre o acesso dos filhos a produtos idealizados para o gênero oposto




m outubro do ano passado, a professora brasiliense Ana Carolina Tessmann, 28, publicou em uma rede social a foto do filho Eduardo, na época com quatro anos, vestido com uma cauda de sereia. A imagem da criança com a fantasia azul brilhante e legenda “sereio” teve várias curtidas e comentários sobre a vestimenta do garoto.

Recentemente, o músico e cantor Lucas Lima, casado com a também intérprete Sandy, da mesma forma, postou uma foto do filho deles, Theo, 4 anos. Na ocasião, o pai se declarou ao primogênito e expôs que o menino brinca com bonecas. Em pouco tempo, a publicação ganhou muitos elogios e milhares de críticas.

A repercussão levou o Jornal de Brasília a tratar do assunto e ampliar a discussão. Por que o gosto de Theo e Eduardo, ambos da mesma faixa etária e realidades distintas, por brinquedos ditos “de meninas” gerou tamanha comoção, seja ela positiva ou negativa? Para Ana Carolina, o debate reflete como o homem e a mulher estão se recolocando na sociedade.

“No meu entendimento, todos nós temos liberdades, habilidades e responsabilidades iguais, ainda que a figura masculina e a feminina sejam, naturalmente e erroneamente, excluídas de alguns papéis. Se quero que meu filho saiba o lugar dele no mundo, que ele entenda que é um ser humano de direitos como qualquer outro, preciso que ele aprenda isso desde cedo”, diz.


Mãe de Eduardo postou foto do filho com cauda de sereia: escolha da brincadeira é dele. Foto: Reprodução

Não por acaso, a professora incentiva que Eduardo experimente brincar de tudo. “Nunca fizemos distinção aqui em casa, muito menos de brinquedos. Digo para ele que meninos e meninas têm as mesmas capacidades, o que difere e o que importa é o gosto de cada um”, completa.

O garoto, hoje com cinco anos, tem bonecas, barbies, fantasias de sereia, jogo de panelas e até vassouras e rodos. “Não temos o costume de comprar brinquedos para o Dudu, mas, uma vez que comecei a perceber que ele só ganharia coisas ‘de menino’, passei a estimular as pessoas a darem presentes libertadores. O primeiro foi uma boneca de pano, que troca de roupa”, conta a professora. Ela lembra como foi a reação do filho. “Foi normal, como qualquer criança que fica encantada quando ganha um presente”.

Fogão e panelas

Na escola, Eduardo também amplia as possibilidades de diversão. Lá, tem uma ‘casinha’ completa com cozinha, fogão e louça. “Ele adora. Chega em casa e continua brincando com o jogo de panelas rosa dele, ainda que a preferência dele sejam os animais. Vale lembrar que a cor associada ao gênero também é um grande limitador para a criança”, diz a mãe.

Para ela, a discussão sobre não é só válida, mas essencial, inclusive nas escolas. “É de responsabilidade dos pais e também das instituições de ensino falar sobre isso e não reproduzir o que o senso comum pensa. A adultização das crianças é um erro. Muito precocemente, a gente coloca na cabeça deles preconceitos, opiniões e pontos de vista de adultos”, acrescenta.

Sobre as famílias mais tradicionais, que condenam a atitude da professora, Ana Carolina acredita que o “entendimento delas é equivocado, preconceituoso e engessado. Sugiro a esses pais pensarem o quão limitados os filhos vão crescer e se é isso que eles desejam para eles. Gênero não pode ser usado, em hipótese alguma, como um argumento que delimita as nossas escolhas”, conclui.

A discussão é ampla e provoca opiniões contrárias. Na casa da secretária Gabriela Cristina Silva, 27 anos, por exemplo, o primogênito Victor, 7, nunca teve um brinquedo “de menina”. O garoto gosta de jogar bola, andar de bicicleta e brincar com carrinhos. Ele tampouco foi estimulado pela família a experimentar o mundo feminino.

“Victor sempre ganhou brinquedos masculinos, jamais teve uma boneca. Também nunca demonstrou interesse nisso”, afirma Gabriela.

A secretária conta que o filho se diverte com meninas, mas não usa os brinquedos delas. “Ele encontra as primas, corre, anda de bicicleta com elas, mas, se a menina quiser ir brincar de boneca, ele sai e vai ficar com outro coleguinha”. Para Gabriela, as escolas andam muito modernas nesse sentido.

“Tem coisa que ele aprende no colégio que é muito liberal, não combina com o que a nossa família segue e acredita. Temos princípios cristãos e vejo que alguns pontos vem sendo distorcidos”, afirma.

Gabriela acredita que estimular Victor a ter brinquedos “de meninas” pode influenciar na sexualidade do filho. “Às vezes, acho que isso pode atrapalhar sim. Se houvesse um incentivo da minha parte, seria um passo para que ele não seguisse um caminho heterossexual.

Eu poderia despertar a curiosidade dele, mas, até hoje, Victor nunca teve interesse não apenas em brinquedos, mas também em maquiagem e roupas de meninas”, finaliza.

Ponto de vista

A psicóloga e especialista em análise do comportamento Fabiana Cassimiro alerta que nenhuma brincadeira pode ser tolida. “Brincar é o que existe de mais lúdico e natural para uma criança. É o momento em que ela cria possibilidades e se desenvolve. Proibir ou blindar os filhos de brincadeiras pode gerar adultos inseguros”, alerta.

Fabiana explica que, naturalmente, vão existir famílias tradicionais e outras mais liberais e que a criação depende dos costumes dos pais. “Não existe o certo e o errado”, declara a psicóloga. Porém, segundo ela, a escolha de uma criança por um brinquedo considerado do sexo oposto jamais vai influenciar na opção sexual dela. “Ninguém se torna gay por causa disso. O preconceito está na cabeça dos pais, é imposto por eles”.

Liberdade e respeito prevalecem

A estudante Loren Braz, 31 anos, é mãe de um casal, Leonardo, 7, e Louise, 2. Para ela, existe um exagero quanto ao tema. “As pessoas forçam a barra, criam polêmicas desnecessárias, além de relacionarem tudo à ideologia de gênero. Tem muita gente querendo chocar, dizer que é moderno. Não acredito em regras absolutas. Não é que meu filho não possa incluir uma boneca da irmã na brincadeira ou ela se interessar por algo do Leonardo, mas percebo que existe um excesso”, opina.

Na casa dela, Leonardo e Louise se divertem juntos e até compartilham os brinquedos, mas cada um tem o seu. “Não faço distinção de objetos para meninas ou meninos. É tudo brinquedo. No entanto, jamais ofereceria uma boneca ou uma Barbie ao meu filho. Essa vontade teria que partir dele. Não acho que eu tenha que estimular isso”, afirma a estudante.

Loren se considera uma mulher tradicional e diz que repassa para os filhos a educação, os princípios e os valores que herdou dos pais. “Quero instruí-los sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o respeito ao próximo, a liberdade que ele e sua irmã terão para escolher suas profissões sem se importar com os rótulos de trabalhos ditos ‘de meninos e de meninas’.

Acredito que o ‘x’ da questão está em educar nossos filhos para evoluírem com o mundo, sem abandonar os princípios que aprenderam em casa”, conclui.

Sandy e marido saem em defesa da liberdade

No dia 21 de agosto, o músico Lucas Lima, marido da cantora Sandy, postou uma foto no Instagram. Na imagem, é possível ver os pés do artista ao lado de um pequeno par de tênis do filho do casal e uma miniatura da boneca Elsa, personagem do filme Frozen. Na legenda, Lucas Lima escreveu:

“Toda vez que vou tomar café da manhã e esbarro com um tênis desses e uma Elsa aleatória no chão, eu lembro do quão ridiculamente abençoado eu sou”.

A publicação gerou repercussão imediata. Em questão de minutos, o cantor recebeu uma enxurrada de elogios e críticas.

Dias após a polêmica, Sandy se manifestou sobre o fato do filho gostar de brincar de boneca. Em um programa de televisão, a cantora disse que não vê o menor problema nisso e acrescentou que não se importaria se o filho fosse gay.

Fonte: JBr / Jornal Águas Lindas

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