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Para conter crise, UnB corta transporte e demite até estagiários

Atolada em dívidas, a instituição reduziu serviços de limpeza, mandou terceirizados embora e aumentou os preços do Restaurante Universitário



gosto terminou e a Universidade de Brasília (UnB) não fechou as portas, como previsto em março deste ano, caso não superasse a mais grave crise financeira de sua história. “Agora, estamos cautelosamente otimistas”, avalia a decana de Planejamento e Orçamento da instituição, Denise Imbroisi. Apesar disso, essa projeção positiva decorre de medidas de austeridade, como redução no número de funcionários terceirizados, estagiários e subsídios, que têm impactado a vida dos estudantes.

Hoje, a UnB tem 978 funcionários terceirizados – de áreas como limpeza, transporte e segurança. No entanto, a quantidade de demitidos neste ano não foi informada. De acordo com a universidade, “não estão previstos novos reajustes”. Os estagiários também foram alvo do corte. Houve descentralização do pagamento dos contratos para as unidades acadêmicas e administrativas. Assim, departamentos e faculdades passaram a usar seus recursos para pagar os estudantes-trabalhadores.

Lindomar Cavalcante Silva Júnior, 20 anos, estudante do 6º semestre de letras, perdeu a função na Biblioteca Central (BCE) da UnB. “Eu estagiava para sobreviver. Muitos colegas, assim como eu, tinham a bolsa como principal meio de sustento”, relembrou. Atualmente, a UnB conta com 275 estagiários, número 70% inferior ao registrado em maio deste ano (914).

Entre as mudanças para estancar as dificuldades financeiras, está a redução no transporte intercampi gratuito – de um campus a outro –, exclusivo para estudantes. Aluno do nono semestre de geografia, Gabriel Alves, 22, tem sentido o efeito causado pelo fim de horários de uma das linhas, da Faculdade UnB Planaltina (FUP) ao Darcy Ribeiro, na Asa Norte.



“Eu usava intercampi uma vez por semana. Dava aula em projeto de extensão, de cursinho preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio [Enem], das 14h às 16h, na FUP. Utilizava o ônibus que ia para lá às 13h e voltava ao Darcy às 16h. Porém, não existe mais”, lamentou. O estudante só não abandonou o projeto porque é contemplado pelo Passe Livre Estudantil, do Governo do Distrito Federal (GDF).

A UnB justificou o fim de alguns horários do intercampi pela baixa demanda em determinados trajetos e horários específicos. Além disso, alega ter identificado irregularidades por parte de alguns usuários: em vez de utilizarem esse transporte gratuito para se locomoverem de um campus a outro, usavam para ir – ou vir – de casa rumo à universidade.

“A adequação das linhas foi realizada tendo em vista as atuais necessidades e possibilidades da instituição. Foram mantidos horários e trechos de maior procura, considerando o objetivo do intercampi: permitir que estudantes de determinado campus realizem algumas atividades acadêmicas em outro”, comunica a UnB, em nota.

A universidade salientou que a definição dos horários e trajetos ocorreu baseada em estudo feito no primeiro semestre deste ano, mediante grupo de trabalho constituído por representantes de cada campus e da Prefeitura da instituição (PRC).

Quem precisa organizar e participar de atividades de campo também se queixa de problemas no transporte. Chefe do Departamento de Geografia (GEA), o professor Fernando Sobrinho lamentou a impossibilidade de realizar a quantidade ideal de aulas fora dos campi e ressaltou a importância desse tipo de tarefa para o ensino.

“No início de cada semestre, pedimos aos professores que indiquem quantas atividades de campo pretendem fazer ao longo do semestre. Mas não é possível fazer todas. E é fundamental, em disciplinas como geomorfologia e climatologia, por exemplo, levar os estudantes a campo. Como ao Instituto Nacional de Meteorologia”, diz Fernando Sobrinho.

Nos últimos anos, as universidades federais, por determinação de portaria do Ministério do Planejamento, não podem renovar a frota automotiva. A UnB sequer tem permissão para consertá-la, nos casos em que a manutenção é inviável. Assim, parte dos ônibus, por exemplo, fica inutilizada após apresentar defeito. A instituição também não pode abrir concursos para contratação de motoristas. Ou seja, quem deixou o quadro, por aposentadoria ou demissão, não foi substituído.



Para manter as atividades acadêmicas fora da sala de aula, os departamentos têm contratado empresas terceirizadas. Apesar disso, tem havido redução nas saídas de campo. Estudante de geografia, Maria Virgínia Carvalho, 22, elenca os prejuízos causados pelo entrave. “Aulas sobre relevo, solo, vegetação acabam ficando muito no campo das ideias. Em vez de vermos de perto, os professores usam imagens e isso muda a dinâmica da aula”, reclamou.

Limpeza
Para não encerrar o ano com as contas no vermelho, a UnB tem apostado no ajuste dos contratos. Na limpeza, houve diminuição da frequência de varrição nos estacionamentos. A higiene em salas de professores também está reduzida, mas, segundo a instituição, em áreas de grande circulação e banheiros, permaneceu inalterada. Os estudantes, porém, notam outro cenário. “Os banheiros têm ficado sujos por mais tempo”, disse Maria Virginia.



Refeição mais cara
A alimentação no Restaurante Universitário (RU) da UnB tem pesado no bolso dos estudantes. Quem costumava pagar R$ 2,50 no café da manhã, almoço e jantar, agora tem de desembolsar R$ 2,80 no desjejum e R$ R$ 5,20 nas outras duas refeições. A mudança, um dos principais meios da UnB para alavancar a arrecadação, não afetou quem tem isenção assegurada pela assistência estudantil.

“Nós tentamos de tudo para evitar esse aumento. Sabemos que ele influencia bastante a vida dos estudantes. Principalmente, aqueles que não têm boa condição financeira e nem assistência estudantil”, lamentou Jessé Lima, 22, um dos coordenadores-gerais do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e mestrando em linguística. O valor pago anteriormente pelos usuários da comunidade acadêmica não era reajustado desde 1994.



Dificuldade financeira
Há cinco meses, as contas não fechavam e a universidade estimava rombo de R$ 92,3 milhões ao fim deste ano. Para tentar equilibrar as finanças, a instituição calculou quanto precisa cortar em despesas: R$ 39,8 milhões. Em contrapartida, tem de aumentar a receita em R$ 50,8 milhões, o que inclui remanejamentos orçamentários.

Nunca usei a palavra ‘crise’. Mas é claro que temos dificuldades. Apesar disso, já fizemos tudo o que precisávamos para despesas caberem no orçamento"
Denise Imbroisi, decana de Planejamento e Orçamento da UnB
Segundo Denise Imbroisi, a UnB já alcançou “de 50% a 60%” do aumento de receita necessário previsto à época.

O Ministério da Educação (MEC) informou que, neste ano, excetuando as despesas obrigatórias (pagamento de pessoal ativo e inativo), a pasta liberou para a UnB R$ 178,7 milhões dos R$ 251,8 milhões previstos. A instituição empenhou, até o momento, R$ 137,9 milhões. Portanto, ainda há cerca de R$ 40,8 milhões de cota do ministério ainda não utilizados.

A pasta acrescentou que não há cortes para as universidades federais em 2018 e tem garantido o fluxo financeiro regular e sem atraso para todas as instituições.

Fonte: Metrópoles / Jornal Águas Lindas

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